Doces lucros
Jovens empresários dão vida nova a receitas antigas.
O trabalho de preservar a herança cultural não é somente para arquitetos, historiadores da arte e antropólogos, mas também para cozinheiros. Para a maioria das pessoas, a comida é mais do que mero sustento e as comidas tradicionais são veneradas como símbolos culturais, a última defesa contra a homogeneização global dos estilos de vida.
Para três jovens empresários equatorianos, a preservação de tradições culinárias – no caso deles, doces – tornou-se um negócio lucrativo. Sua empresa, a Dulces Tradicionales del Ecuador (Dutraec), nasceu há quatro anos quando a proposta comercial que fizeram foi escolhida como uma das sete ganhadoras de um concurso para jovens organizado pela Fundação Esquel, organização equatoriana sem fins lucrativos. A fundação também financiaria os vencedores com a ajuda de uma doação do BID.
A empresa foi fundada por três alunos de economia e negócios da Universidade Católica, Marco Vintimilla, Esteban Vega e María Caridad Araujo, que se conheciam desde o secundário. “Queríamos entrar no concurso, mas não sabíamos o que propor”, diz Vintimilla, hoje gerente de vendas da companhia.
Elaboraram uma lista de 40 projetos com possibilidades de lucro, entre eles um bar num parque com quadras de vôlei e uma fábrica de caixas de madeira para empresas exportadoras. “Finalmente escolhemos o ramo tradicional da confecção de balas porque parecia o mais fácil e não exigia muito capital para começar”, disse ele. “Vimos o potencial do negócio.”
A Fundação Esquel deu ao trio US$3.500 para realizar uma pesquisa de mercado antes de abrir o negócio. Eles reuniram cinco grupos de idades diferentes e ficaram sabendo, entre outras coisas, que as pessoas gostavam dos doces tradicionais, mas tinham dificuldade de encontrá-los e não queriam comprá-los em sacos de plástico não selados. Em função dessas sessões, os três fundadores decidiram o nome do produto, Dulces de Antes, e formularam os planos de comercialização e distribuição.
Contrataram um artista gráfico que criou uma logomarca e dois tipos de embalagem: caixas bem concebidas, mostrando fotos coloridas dos doces e embalagens de plástico transparente para pendurar nos mostruários das lojas. Em seguida, os fundadores da companhia investiram cerca de US$10.000 de suas economias e a fundação contribuiu mais US$15.000 em financiamento de capital para começar o negócio. Um dos primeiros desafios foi encontrar gente que ainda estivesse fazendo doces antigos do jeito tradicional e que pudesse ser um fornecedor de confiança. “Perguntamos aos nossos pais que tipo de doces costumavam comer e onde o compravam”, conta Vintimilla. “Disseram que os compravam de uma velhinha na rua tal e tal. Fomos até lá e encontramos gente que ainda fazia os doces.”
Um dos produtores dos doces tradicionais que encontraram foi Luis Banda Jr., que representava a terceira geração de confeccionadores de balas de amendoim chamadas colaciones. Apesar de ser formado em engenharia, tinha decidido continuar o negócio da família de fabricação de doces tradicionais usando a receita secreta de sua avó. É um trabalho fisicamente exaustivo, disse ele. Os amendoins torrados são aquecidos com açúcar derretido, baunilha e suco de limão num caldeirão de bronze suspenso de uma viga; o caldeirão é balançado manualmente para a frente e para trás sobre um fogo a carvão, para que a mistura endureça e forme uma camada em torno de cada amendoim; aos poucos se adiciona mais líquido até que as camadas formem uma pequena bola branca do tamanho de uma bolinha de gude. Cada fornada de 10 quilos leva três horas para ficar pronta.
“Antes havia 45 ou 50 pessoas fazendo colaciones em Quito”, diz Luis Banda pai, 78 anos de idade. “Agora não há mais ninguém, exceto nós, porque a maioria das pessoas da minha idade já morreu. Seus filhos não quiseram continuar a fazer colaciones porque é um trabalho duro, com a barriga encostada no calor do fogo o dia inteiro.”
“Não sei se meu filho vai querer fazer isso”, diz Banda Jr. “Será difícil.”
Nem todos os fornecedores que a companhia encontrou vêm de uma linhagem de produtores especializados. Um exemplo é o fornecedor de alfajores, um biscoito de massa leve recheado com doce de leite. A doceira que faz os alfajores aprendeu o ofício depois que o marido morreu e ela precisou ganhar dinheiro para se sustentar. Hoje, ela já contratou um empregado e construiu dois fornos grandes.
Encontraram também fornecedores de doce de leite, quadradinhos de goiabada e manizado, um pé-de-moleque em placas feito com uma mistura de amendoins, sementes de gergelim e caramelo.
Mas alguns doces antigos aparentemente se perderam para sempre. “Todo mundo pergunta se vamos fazer mistelas”, diz Vintimilla, referindo-se às figurinhas de açúcar que derretem na boca, recheadas de licor de açúcar. Todo mundo em Quito com mais de 35 anos de idade já provou esse doce pelo menos uma vez na vida. Mas eles são frágeis e difíceis de fazer. O último confeccionador de mistelas, descobriram, tinha morrido há oito anos.
A nova empresa fez sua primeira venda em 1996, conseguindo um contrato para fornecer 1.000 caixas de doces a uma empresa equatoriana para brindes de Natal. Naquela época, a Dutraec não tinha empregados, assim Vintimilla e seus sócios tiveram que embalar eles mesmos os doces em tradicionais vasilhas de barro colocadas dentro de pequenas cestas.
Não foi tão fácil encontrar clientes quanto eles pensavam que seria, conta Vintimilla. “O mais difícil era convencer as pessoas a comprar um produto que estava no mercado há anos, mas que agora vinha numa embalagem diferente. Elas nos perguntavam: ‘Como podemos saber se é de boa qualidade?’”
A Dutraec agora emprega seis pessoas que empacotam os doces enviados pelos fornecedores. As vendas subiram a US$6.500 ao mês antes que o Equador mergulhasse na crise econômica de fevereiro. Apesar da recessão que continua a castigar os varejistas em todo o país, as vendas da companhia continuam estáveis.
“Muitas empresas pequenas estão indo à bancarrota”, diz Vintimilla, “mas nós não estamos despedindo ninguém”.
De fato, depois que a Dutraec conseguir o selo de aprovação do órgão governamental de alimentação e drogas, os consumidores poderão comprar Dulces de Antes nos supermercados. Isso, juntamente com as incorporações recentes à linha de produtos da Dulce de Antes – um enrolado de goiaba e doce de leite, doce de leite coberto de açúcar e doces de coco -, está mostrando que os doces antigos aparentemente têm futuro no Equador.
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Meu nome é Roberto Machado, proprietário do DoceShop Atacado e Varejo de doces e autor deste
13 julho, 2006 às 9:09 am
Idéia excelente. Por aqui também existe esse mercado, nem precisa fazer pesquisa de mercado.
[Responder]
28 dezembro, 2006 às 1:06 pm
filho
Interesting post. I came across this blog by accident, but it was a good accident. I have now bookmarked your blog for future use. Best wishes. Wael Kfoury.