26 de outubro de 2006

Empreender virou mania

O uso indevido da palavra “empreendedor” tem tomado tamanha proporção no nosso cotidiano, que se faz necessário revisitar o seu verdadeiro significado, sob pena de não sermos mais capazes de identificar corretamente esse agente de mudanças tão valioso para o desenvolvimento de qualquer sociedade. A confusão a respeito do real sentido do termo “empreendedor” teve início com a bolha da internet, no fim da década de 90, a qual alçou o empreendedorismo ao posto de carreira altamente desejável e fez jus à importância dos empreendedores para o aquecimento da economia.

A fama e a fortuna conquistadas pelos jovens que conduziram empresas recém-fundadas virou a cabeça de muita gente e transformou milhares de consultores e banqueiros em empreendedores-relâmpago. Sem contar a onda de IPOs (Initial Primary Offer, que significa, em português, a primeira oferta das ações de uma empresa no pregão) bem- sucedidas na Bovespa, que levou um grande número de brasileiros a acumular milhões de reais nos últimos dois anos. O novo cenário, marcado pelo otimismo e por ganhos aparentemente fáceis, alimentou o sonho de conduzir o próprio negócio e ajudou a fazer do empreendedorismo um modismo.

Algo realmente surpreendente, já que não faz muito tempo, os empreendedores no Brasil eram chamados apenas de “pequenos empresários”. A falta de perspectivas de grandes e rápidos ganhos de capital com a atividade empreendedora já vinha embutida no adjetivo “pequeno”, o que levava muitas pessoas a olhar com desconfiança quem investisse na concretização do negócio próprio. Livrar-nos deste estereótipo não foi fácil e levou tempo, mas felizmente aconteceu. Foi um grande avanço, pois rotular alguém pelo porte de sua empresa é, no mínimo, inadequado e pouco estimulante. Além disso, até o advento da bolha da internet, os empreendedores eram vistos com muito preconceito pela sociedade, que ora os enxergava como os vilões trapaceiros das novelas, ora como profissionais que não foram capazes de arrumar um bom emprego.

Mas parece que fomos de um extremo ao outro. Assim, ter espírito “empreendedor” tornou-se uma qualidade desejável e aplicada a qualquer pessoa, em todas as situações. Transformou-se em um elogio concedido àqueles que têm persistência e coragem. Outro dia mesmo, eu perdi um amigo, que me pediu um conselho a respeito de abrir ou não um negócio próprio. Por conhecê-lo muito bem, fui honesta. Disse-lhe que não acreditava que ele tivesse perfil empreendedor. Ele ficou ofendidíssimo, como se o tivesse chamado de incompetente ou algo ainda pior.

Afinal, qual seria a definição adequada para esta palavra? Existem muitas correntes de pensamento acerca do assunto com ênfases distintas nas capacidades do empreendedor: de tomar risco, de inovar e de criar novos negócios. Entre tantos estudiosos, destaca-se o professor Howard Stevenson, da Universidade de Harvard, que resume o empreendedor como aquele que explora uma oportunidade contando com recursos que não controla. E é justamente o talento para realizar muito com recursos parcos que se transforma no seu maior diferencial em relação a tantos outros agentes do mundo dos negócios. É essa capacidade que lhe confere o poder de geração de valor para a cadeia produtiva e social, esteja o empreendedor à frente de negócios com fins lucrativos ou no comando de organizações não-governamentais, o chamado empreendedor social.

O entendimento popular atual sobre o que é de fato um empreendedor ignora quaisquer considerações teóricas. O maior risco de não levar em conta os conceitos acadêmicos é de nos perdermos numa espécie de “empreendedomania”. O que isso significa? Transformar o termo “empreendedor” em um adjetivo vulgarizado ou num outro extremo, que endeusa o indivíduo que tem por conduta empreender. Em ambos os casos, o modismo aponta o empreendedorismo como o único caminho a seguir. Isso seria tão perigoso e nocivo quanto o desprezo social que imperava anteriormente, pois pode levar pessoas a se aventurar no mundo dos negócios sem as qualificações necessárias e por razões equivocadas.

Por Marília Rocca


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